Bloqueio no Estreito de Ormuz leva Golfo a planejar megaprojetos de oleodutos
Por Fabio Vilarinho
02/04/2026 - 14h41
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A escalada do conflito envolvendo o Irã está levando países do Golfo a revisitar um antigo dilema estratégico: como exportar petróleo sem depender do Estreito de Ormuz, um dos pontos mais vulneráveis do sistema energético global.
Autoridades e executivos do setor avaliam que a construção de novos oleodutos pode ser a única forma de reduzir a exposição da região a interrupções no fluxo de petróleo, ainda que os projetos envolvam bilhões de dólares, desafios geopolíticos e anos de execução.
Gargalo estratégico no centro da crise
O Estreito de Ormuz concentra cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo e conecta os principais produtores do Golfo aos mercados internacionais.
Em cenários de conflito, como o atual, a possibilidade de bloqueio ou restrição da rota provoca choques imediatos nos preços e na oferta global.
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A crescente percepção de que Teerã pode manter influência prolongada sobre a passagem marítima tem forçado países da região a buscar alternativas estruturais, em vez de depender apenas de soluções militares ou diplomáticas para garantir o fluxo de energia.
Oleoduto saudita vira modelo
Nesse contexto, ganha destaque o oleoduto leste-oeste da Arábia Saudita, construído nos anos 1980 durante a guerra entre Irã e Iraque.
Com cerca de 1.200 km de extensão, a infraestrutura permite transportar até 7 milhões de barris por dia até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, contornando completamente o Estreito de Ormuz.
A estrutura, operada pela Saudi Aramco, voltou ao centro da estratégia energética do país.
Executivos consideram o projeto uma espécie de “seguro geopolítico”, capaz de garantir exportações mesmo em cenários de crise.
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Agora, Riad avalia ampliar a capacidade do sistema ou investir em novas rotas que aumentem o volume exportado fora da zona de risco.
Projetos travados podem sair do papel
Planos de novos oleodutos no Golfo não são novidade, mas historicamente esbarraram em custos elevados e disputas políticas. A guerra, no entanto, alterou o cálculo.
Especialistas apontam uma mudança de postura entre governos da região, que passam a tratar projetos antes considerados hipotéticos como alternativas reais.
A ideia mais robusta envolve a criação de uma rede integrada de oleodutos, conectando diferentes países e rotas de exportação.
Essa solução, embora mais resiliente, é também a mais complexa, exigindo coordenação entre governos com interesses nem sempre alinhados.
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Corredores globais e novas rotas comerciais
No longo prazo, os projetos energéticos podem se integrar a iniciativas mais amplas de infraestrutura.
Um dos planos em discussão é o chamado corredor Índia–Oriente Médio–Europa, que incluiria transporte de energia e mercadorias.
A proposta, apoiada pelos Estados Unidos, esbarra em entraves políticos, especialmente no trecho que poderia passar por Israel até o Mediterrâneo.
Executivos do setor defendem que a diversificação de rotas é essencial para reduzir a dependência de gargalos geográficos.
A lógica é simples: quanto mais caminhos disponíveis, menor o poder de interrupção de um único ponto crítico.
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Custos bilionários e riscos de segurança
Apesar do novo impulso, os obstáculos seguem significativos.
A construção de um oleoduto comparável ao modelo saudita custaria ao menos US$ 5 bilhões, podendo chegar a US$ 20 bilhões em projetos mais complexos que cruzem múltiplos países.
Além do custo, há desafios técnicos e de segurança.
Regiões como Iraque ainda enfrentam instabilidade, com presença de grupos armados e áreas contaminadas por explosivos.
Rotas ao sul, em direção a Omã, também exigiriam atravessar terrenos difíceis, incluindo desertos e cadeias montanhosas.
Nem mesmo portos alternativos estão livres de ameaças. Ataques recentes com drones contra instalações estratégicas reforçam a percepção de que o risco se espalha por toda a região.
Soluções de curto prazo ganham força
Diante da complexidade dos grandes projetos, medidas mais imediatas ganham prioridade.
Entre elas, a expansão de infraestruturas já existentes, como o oleoduto saudita e a rota de exportação de Abu Dhabi até o porto de Fujairah, fora do Estreito de Ormuz.
Outra possibilidade é o desenvolvimento de novos terminais no Mar Vermelho, incluindo projetos ligados à megacidade de Neom, que poderiam ampliar a capacidade de exportação sem depender da passagem pelo Golfo.
Nova lógica energética após a guerra
A guerra com o Irã está acelerando uma mudança estrutural no pensamento estratégico dos países do Golfo. Se antes o custo e a complexidade desestimulavam projetos alternativos, agora o risco de interrupção passou a ser visto como ainda mais caro.
O resultado é uma reavaliação profunda da arquitetura energética da região, com impacto potencial duradouro sobre o comércio global de petróleo.
Mesmo sem decisões imediatas, autoridades e empresas reconhecem que o cenário dificilmente voltará ao que era antes do conflito, e que a dependência do Estreito de Ormuz deixou de ser apenas uma vulnerabilidade teórica para se tornar um risco concreto.
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