O plano bilionário do agro para blindar exportações em guerra comercial
As exportações do agronegócio brasileiro em 2025 superaram 169 bilhões de dólares — um recorde histórico, com alta de 3% frente a 2024. O número impressiona, mas a mensagem mais relevante é outra: em um cenário de instabilidade geopolítica e novas barreiras comerciais, o setor busca transformar escala em capacidade de resistir a choques, ampliando mercados e diversificando a pauta para reduzir a dependência de poucos compradores — em especial da China, destino de um terço das exportações do agro brasileiro. O desempenho foi sustentado pelo crescimento nos volumes embarcados de soja em grãos, milho e proteína animal. Foi também em 2025 que o Brasil se tornou líder mundial na produção de carne bovina, com 12,4 milhões de toneladas, e manteve o maior volume exportado — 4 milhões de toneladas, que resultaram em quase 18 bilhões de dólares em vendas, segundo estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.
O carro-chefe continua sendo o complexo soja — grão, farelo e óleo —, mas a estratégia passa por ampliação de destinos e usos. “Qualquer país que produza proteína animal é um potencial comprador do agro brasileiro. Também tem aumentado o uso de óleo de soja para a produção de biodiesel”, afirma o economista Felippe Serigati, pesquisador do centro de estudos FGV Agro. Os combustíveis renováveis ajudam a explicar por que outra cultura ganha força na pauta exportadora: o milho. “O Brasil era importador desse produto, há trinta anos, e hoje é líder exportador”, ressalta Serigati.
Esse movimento de ampliar o leque aparece com clareza em produtos que combinam tecnologia e acesso a mercados. As frutas ilustram bem a tendência. Pelo terceiro ano consecutivo, os produtores brasileiros bateram recorde: 1,45 bilhão de dólares em exportações, alta de 12%, com crescimento de quase 20% em volume — 1,3 milhão de toneladas, lideradas por mangas, melancias, uvas e limões. “O resultado decorre da competitividade do produtor e da agroindústria, do uso de tecnologia em mercados demandantes por alimentos, fibras e coprodutos agroindustriais brasileiros”, afirma Luiz Carlos Corrêa Carvalho, vice-presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag).
Um levantamento do centro de estudos Insper Agro Global mostra que, desde 2023, o Brasil se tornou o maior exportador de commodities agropecuárias e agroindustriais, ultrapassando os Estados Unidos. Mas ainda estamos longe de alcançar os americanos nas exportações totais do agronegócio — a diferença está nas especialidades de alto valor agregado, como frutas, vegetais, bebidas e alimentos preparados, segmento em que os EUA obtêm receita 7,5 vezes maior. Fechar essa lacuna depende também de um ambiente externo que se tornou menos previsível.
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De um lado, o acordo recentemente firmado entre Mercosul e União Europeia abre espaço para ganhos de médio prazo. “O acordo é positivo, em especial para o agronegócio brasileiro. Em um momento em que o mundo tende a fechar portas para o comércio internacional, essa abertura pode induzir o setor a aumentar a diversificação da pauta exportadora, com a oferta de produtos industrializados, valorizados pelos europeus”, afirma Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global. Negociado por mais de 25 anos, o tratado prevê cotas para produtos como carne, etanol, arroz e açúcar e a eliminação de tarifas em até 91%. Segundo projeção do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o acordo pode induzir um aumento de 2% na produção agropecuária nacional. Hoje, a UE responde por 16% das exportações do agronegócio brasileiro.
Do outro lado, está o motivo pelo qual a diversificação virou prioridade: a concentração em um cliente grande demais para ser substituído rapidamente. A China comprou perto de metade da carne exportada pelo Brasil no ano passado e fixou uma cota anual de 1,1 milhão de toneladas — o restante pagará sobretaxa de 55%. “Enquanto o tarifaço dos Estados Unidos esteve em vigor, foi a diversificação de países compradores que impediu que as exportações de carnes sofressem uma queda”, diz Gilio.
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Esse aprendizado se traduz em iniciativas concretas. Em 2025, começaram as vendas de proteína animal para o Vietnã. As Filipinas consolidaram-se como principal destino de carne suína brasileira, depois de ampliar as compras em 54,5% e superar o volume remetido à China. O governo federal negocia autorização para vender carne bovina e produtos à base de gordura animal para o Japão. E, em agosto passado, o Brasil obteve o direito de exportar carne bovina para a Indonésia; no período, o país ampliou em 176% o volume de carne bovina importada do Brasil. São passos que não eliminam o peso chinês, mas ampliam alternativas e poder de negociação.
A visão das tradings confirma o diagnóstico. “A agricultura brasileira é dinâmica, resiliente e de escala mundial. Nos últimos dois anos, fortaleceu a diversificação de seus destinos, tendo como parceiros principais a China, a União Europeia e os Estados Unidos, além de apresentar forte crescimento em mercados emergentes na África e no Oriente Médio”, diz Dante Pozzi, diretor de commodities da Amaggi. Em 2025, a empresa exportou 15 600 toneladas de commodities, totalizando 5,5 bilhões de dólares. Ainda assim, a sobriedade prevalece: “Dificilmente vamos conseguir encontrar outro comprador com a musculatura da China. Poucos países têm superávit com os chineses, e o Brasil tem. Mas os produtores vêm buscando aumentar a diversificação de compradores”, afirma Serigati, do FGV Agro.
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A lógica de ampliar mercados e diluir riscos rege também papel e celulose. Marcos Assumpção, vice-presidente de finanças e relações com investidores da Suzano, resume a posição: “Aproximadamente 80% da nossa receita vem da exportação de celulose. Em 2026, não vai ser diferente”. No ano passado, a empresa comercializou 11,9 milhões de toneladas de celulose para o mercado externo, ante 10,2 milhões em 2024; as exportações de papel saltaram de 432 000 para 711 000 toneladas. “Em celulose, temos crescido em mercados tradicionais, como Europa, Estados Unidos e China, mas também em outros países da Ásia”, diz Assumpção. No caso do papel, o volume antes vendido aos Estados Unidos foi distribuído a novos destinos após a imposição de uma tarifa de 50% em agosto. “Enquanto a tarifa perdurar, não temos condições de retornar ao mercado americano”, afirma.
Diversificar vendas, porém, não basta sem uma base de competitividade sólida — e há gargalos relevantes. As importações também bateram recorde em 2025, e o saldo da balança comercial chegou a cair em relação a 2024, apesar do desempenho exportador. “Nossa dependência da compra de insumos de países em situação delicada no cenário internacional, como a Rússia, representa um risco”, diz Gilio, do Insper Agro. No ano passado, as compras de fertilizantes cresceram 14% e as de defensivos agrícolas, 16,7%. A Abag lista ainda preços em baixa, perspectiva de valorização do real frente ao dólar, dificuldades de acesso ao crédito, instabilidade regulatória e adaptação às mudanças climáticas sem acesso amplo ao seguro rural — que cobre parcela residual das propriedades.
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O horizonte de demanda, no entanto, segue favorável. Para Carvalho, da Abag, a expansão da demanda global por alimentos, energia renovável e soluções sustentáveis abre espaço para agregação de valor e avanço da bioeconomia. Mercados como Paquistão, Filipinas, Bangladesh, Reino Unido, México, Japão e Chile ganham relevância crescente, ao lado do aumento da presença no Oriente Médio, no Sudeste Asiático, na África e na América Latina. “É fundamental que o Brasil se mantenha como um parceiro confiável para apoiar a segurança alimentar e energética global”, diz Serigati. Em um comércio global em que condições mudam rapidamente e barreiras surgem sem aviso, diversificar virou proteção — e o setor tenta, justamente, depender menos de uma única âncora.
Publicado em VEJA, fevereiro de 2026, edição VEJA Negócios nº 23
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