Ala do PSOL diz que Boulos anunciou ida ao PT; ministro critica comunicado

Uma ala dissidente da Revolução Solidária, grupo de Guilherme Boulos no PSOL, divulgou uma carta nesta sexta-feira (20) afirmando que o ministro da Secretaria-Geral da Presidência anunciou sua ida ao PT e provocou uma crise interna para justificar a decisão. Em nota enviada à Jovem Pan, Boulos não nega a decisão de deixar o atual partido, mas critica o comunicado.
Segundo o grupo, a coordenação nacional da corrente foi informada sobre a mudança na noite de quinta-feira (19). “O Movimento Revolução Solidária está discutindo internamente seus rumos políticos. Lamentamos que uma parte do PSOL tenha decidido se apequenar ao divulgar uma carta apócrifa, o que revela oportunismo e desespero”, rebateu o ministro.
A carta da Revolução Solidária, obtida pela Jovem Pan, diz que Boulos decidiu migrar para o PT entre novembro e dezembro de 2025. O documento afirma que o ministro negociou as condições com o presidente do PT-SP, Kiko Celeguin, em reunião na Praia Grande, incluindo a candidatura de sua esposa, Natália Boulos, pela sigla do presidente Lula.
O grupo afirma que a proposta de federação entre os partidos foi apresentada para gerar um conflito e abrir caminho para a desfiliação. No último dia 7, o diretório nacional do PSOL rejeitou a federação com o PT por 47 votos a 15. Na ocasião, Boulos e a deputada Erika Hilton defenderam a aliança como estratégia contra a extrema direita, enquanto a maioria do partido votou pela manutenção da autonomia política e contra o apoio obrigatório a candidatos do PT.
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A carta afirma ainda que a saída de Boulos envolve centenas de militantes e parlamentares que não pertencem ao MTST e possuem base social no PSOL. O texto diz ainda que o ministro pretende integrar a corrente Construindo um Novo Brasil (CNB), mesmo grupo de Lula.
Segundo a dissidência, parlamentares e pré-candidatos estão sendo pressionados a mudar de legenda sob promessas de verbas para campanhas e cargos em um possível novo governo Lula. O documento ainda faz um apelo para que os militantes permaneçam no PSOL e trabalhem na reorganização do partido para as eleições de 2026.
Recusa de federação do PSOL com o PT
O PSOL vetou no último dia 7 a proposta de federação com o PT para as eleições de 2026. A ideia foi debatida em reunião virtual do diretório nacional do partido. Foram 47 votos contrários e 15 favoráveis.
“O tema foi acolhido e, assim como os demais, debatido de modo democrático e amplo, conforme nossa tradição partidária. Vamos seguir agora orientados pelas decisões hoje tomadas, mas sempre com respeito a posições divergentes”, disse, por meio de nota, a presidente nacional do PSOL, Paula Coradi.
O partido optou pela renovação da aliança com a Rede Sustentabilidade. Durante o debate, a cúpula do PSOL avaliou como positivo o balanço dos últimos quatro anos, consolidando a federação como uma ferramenta estratégica para superar a cláusula de barreira e garantir a manutenção institucional e o acesso a recursos.
“A preservação da parceria visa fortalecer as bancadas e ampliar a representatividade federal e estadual, preservando a autonomia política e a identidade de cada sigla dentro de uma unidade programática”, disse o partido em nota
Derrota do grupo de Boulos
A vertente do PSOL liderada pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, vinha sofrendo baixas nas últimas semanas em meio a pressões internas para que o partido aceitasse formar a federação.
A recusa evidencia a resistência entre boa parte dos integrantes da legenda em torno da ideia de se unir ao PT, quase 22 anos depois da dissidência dentro do partido de Lula que originou o próprio PSOL.
Nas últimas semanas, a defesa enfática da corrente do ministro de uma federação com o PT provocou reação de integrantes da própria vertente.
Dois deles, a vereadora de Florianópolis Ingrid Sateré Mawé e o economista José Luis Fevereiro, que fez parte da direção nacional do PSOL, decidiram se desligar da Revolução Solidária.
Em carta, os dois localizaram na derrota de Boulos na disputa à Prefeitura de São Paulo em 2024 a origem para as pressões pela federação com o PT.
“Boulos e o núcleo dirigente da Revolução Solidária mudaram de estratégia. Buscaram um atalho”, escreve Fevereiro. “Não se trata mais de acumular força à esquerda para disputar a hegemonia do próximo período político, mas de localizar Guilherme Boulos o mais próximo possível de Lula para tentar furar a fila da ‘benção’ em 2030.”
A posição contrária à federação foi manifestada publicamente por outras correntes do PSOL, como Movimento Esquerda Socialista e Primavera Socialista.
“A federação do PSOL com o PT não ajuda neste momento. O debate é legítimo. Mas neste momento ela não cabe”, afirma em vídeo nas redes sociais a deputada Talíria Petrone (PSOL-RJ), que liderou o partido no ano passado.
Pesa no estado sobretudo o argumento de que federar com o PT implicaria no PSOL ao lado do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), na disputa pelo governo estadual neste ano.
Cláusula de barreira
Os componentes do PSOL mais alinhados a Boulos argumentam que seria impossível o partido sobreviver sem formar uma federação. Também lembram que a Rede pode se separar do PSOL neste ano e que há deputados estaduais petistas que ainda rejeitam alinhamento com o prefeito do Rio.
A cláusula de barreira é uma regra eleitoral brasileira que estabelece uma performance mínima de desempenho eleitoral nas eleições deste ano para assegurar que partidos possam ter acesso ao Fundo Partidário e tempo de propaganda no rádio e na televisão.
Em 2026, para vencer essa cláusula, os partidos precisarão ter ao menos 2,5% dos votos válidos distribuídos em pelo menos nove Estados, com um valor mínimo de 1,5% em cada um desses estados, ou eleger 13 deputados federais, distribuídos em pelo menos nove estados.
Em 2022, em federação com a Rede Sustentabilidade, o partido elegeu 14 deputados e conquistou mais um parlamentar para a bancada após a reversão de um resultado eleitoral no Amapá. Hoje, a federação tem 11 deputados do PSOL e quatro da Rede.
Os eleitos pela legenda são, em sua maioria, do Rio de Janeiro e de São Paulo. As únicas exceções são Célia Xakriabá (MG) e Fernanda Melchionna (RS).
*Com informações do Estadão Conteúdo







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