Crônica: o urbanismo segundo o Dr. Vivêncio

Tinha padaria com pão quente às seis, banca com gibi e praça com cadeiras sobre a calçada, território cativo das fofoqueiras, de onde examinavam a vida alheia com a seriedade de um ofício. Não era cartão-postal, mas era nosso. Até que o Dr. Vivêncio Prudente descobriu o urbanismo.
O Doutor — título não oriundo de universidade, mas de vivência — era assessor de vereador e, por breve período tenebroso para mim, assessor de secretário de Obras. Sua paixão se resumia ao asfalto. “Vamos asfaltar o futuro!”, proclamava em santinhos amarelos. Até que alguém, num congresso em Balneário Camboriú, sussurrou: “Doutor, asfalto não dá voto como antigamente. O negócio agora é urbanismo, uma tal de mobilidade ativa e, sem dúvida alguma, pleicimeiquin.”
Voltou transformado. Trazia no semblante a segurança de quem aprendeu tudo num fim de tarde e saiu praticando na manhã seguinte. Bastaram-lhe três horas de urban coaching com coffee break voltado ao networking turístico para regressar convertido ao “urbanismo humanizado”, que passou a anunciar por toda a cidade.
O primeiro ato foi revitalizar a calçada da minha rua. Segundo ele, era cinza demais, “brutalista” — palavra que repetia como se estivesse falando de luta livre. Mandou arrancar as árvores antigas, que davam sombra e cobriam o chão de folhas e flores, varridas há anos por mim e pela vizinhança. No lugar, plantou coqueirinhos de shopping, caríssimos e com aparência de plástico. Ficou lindo na foto da inauguração, com ele de capacete de obra e pasta de couro de procedência duvidosa. Três semanas depois, os coqueirinhos murcharam. Não era urbanismo; era jardinagem rastaquera.
O ápice foi o Flyover Park — inspirado, segundo ele, no High Line de Nova York, embora o High Line não estivesse prestes a desabar. Havia um viaduto velho no centro, esqueleto de concreto que ligava lugar nenhum a parte alguma, e o Dr. Vivêncio Prudente enxergou ali não um problema de engenharia, mas uma oportunidade de nomenclatura. Jardim de chuva debaixo dele, ciclovia entre pilares, food trucks para o povo!
Na pressa de entregar antes da eleição, ninguém verificou que a estrutura era de 1950 e não tinha laudo — detalhe técnico que o urbanismo vivencista classificou como burocracia. Na primeira chuva, o trecho voltado ao rio cedeu. Sem vítimas, graças ao divino, a praça ganhou uma ladeira nova e uma cachoeira urbana não prevista no projeto. As crianças adoraram. Os engenheiros, nem tanto.
Mas nada supera o projeto mais recente: o “Bulevarde Times Square Saint Jean”. A grafia já é uma atração. O “e” final de “Bulevarde” dá um ar francês que, segundo ele, “valoriza o conceito”. O “Times Square” é a pegada nova-iorquina. E o “Saint Jean” é homenagem ao padroeiro do largo, descoberto após consulta expressa à Wikipédia. Três idiomas, três referências culturais. Faz sentido? Para ele, faz total. A Santíssima Trindade do urbanismo vivencista.
Vivêncio queria descaetanear a esquina da Ipiranga com a São João: tirar dela a deselegância discreta das suas meninas e a dureza concreta de suas esquinas, devolvendo-a em versão patrocinada, vivenciando-a, por assim dizer, no novo contexto.
Os conselheiros da cidade, representantes do povo, votaram contra. Os técnicos da prefeitura aprovaram o Bulevarde Times Square Saint Jean por unanimidade. O Écovelo Greenway de la Consolação — ciclovia ecológica por obra e graça da tinta verde no asfalto — foi mantido apesar das objeções. Já o Flyover Park foi recolhido à gaveta, aguardando nova votação e argumentos mais sólidos. Em matéria de urbanismo oficial, sempre há algo a negociar.
Hoje passei pela São João. O Dr. Vivêncio Prudente, consultado pela imprensa, disse que sempre acreditou no projeto. Os coqueirinhos continuam murchos.





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